A experiência de 3 países da América Latina que cobram imposto sobre riqueza

Há especialistas que preferem falar em imposto sobre patrimônio em vez de tributação da riqueza

Há especialistas que preferem falar em imposto sobre patrimônio em vez de tributação da riqueza
Getty Images/BBC Brasil

Esse é um dos temas que provocam divisões profundas nos Estados Unidos com a proximidade das eleições presidenciais em novembro deste ano.

Candidatos democratas como Elizabeth Warren e Bernie Sanders propõem a criação de um imposto sobre a riqueza dos multimilionários para diminuir a desigualdade que existe no país e aumentar, com essa arrecadação, os gastos sociais em setores como saúde e educação.

Detratores, por outro lado, argumentam que a iniciativa causaria consequências econômicas negativas, incluindo graves efeitos em investimentos e no emprego.

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“Uma das confusões feitas por políticos de esquerda é que eles pensam que os americanos ricos têm suas riquezas escondidas em barras de ouro sob o colchão”, afirma à BBC Chris Edwards, diretor de Estudos de Políticas Tributárias do Instituto Cato nos Estados Unidos, com sede em Washington.

“Mas a maior parte de seus ativos está investida em negócios. Jeff Bezos (fundador da Amazon), por exemplo, gera crescimento econômico e milhares de empregos.”

 

Taxação de riquezas é um dos temas mais debatidos na corrida eleitoral dos EUA

Taxação de riquezas é um dos temas mais debatidos na corrida eleitoral dos EUA
Getty Images/BBC Brasil

Mas essa ideia não convence Emmanuel Sáez, professor de economia da Universidade da Califórnia e parte da equipe que trabalha com o economista francês Thomas Piketty.

“Esta é a ferramenta mais poderosa para aumentar o pagamento de impostos por aqueles que estão no topo”, afirma ao programa de rádio BBC Business Daily.

Ainda que, para ser de fato efetiva, deva ser aplicada junto a regulamentos internacionais que evitem a fuga de capitais de um país para o outro e controlem efetivamente os problemas de elusão e evasão tributárias.

E essa é uma das razões que explicariam por que vários países da Europa eliminaram essa medida e atualmente apenas quatro a aplicam: Espanha, Noruega, Suíça e Bélgica.

Taxação de riquezas na América Latina

Na América Latina, há três países que adotam o imposto sobre riquezas: Colômbia, Uruguai e Argentina.

Alguns especialistas preferem falar do tema como “imposto sobre patrimônio”, já que do ponto de vista técnico se aplica a ativos menos dívidas.

No caso argentino, o nome do tributo é “imposto sobre bens pessoais”.

 

Tributação do patrimônio tem resultados diferente daquela feita sobre a renda das pessoas

Tributação do patrimônio tem resultados diferente daquela feita sobre a renda das pessoas
Getty Images/BBC Brasil

Para além das características específicas de cada país, trata-se de um tributo aplicado sobre a fortuna das pessoas mais ricas.

É algo diferente, por exemplo, do tributo sobre renda, cobrado a partir dos ganhos de uma pessoa, e não de sua riqueza acumulada.

Mas o segundo é mais difícil de ser calculado e, como ocorre no campo tributário, há muitas maneiras de evitá-lo, algo que joga contra o objetivo básico da medida, que é aumentar a arrecadação fiscal.

É uma boa solução?

“A desigualdade de riqueza ou de patrimônio na América Latina é muito maior que a desigualdade medida por ganhos”, afirma Daniel Titelman, diretor da divisão de desenvolvimento econômico da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) à BBC Mundo (serviço da BBC em espanhol).

É por isso que Titelman avalia que o imposto sobre riqueza “é uma alternativa válida, um instrumento muito útil”, dado que os países da América Latina necessitam aumentar a carga tributária de um modo mais progressivo.

“A cobrança que esse imposto atingiu na Argentina, Colômbia e Uruguai não é trivial em nenhum dos casos.”

 

Imposto sobre patrimônio inclui todos os ativos financeiros e não financeiros menos dívidas

Imposto sobre patrimônio inclui todos os ativos financeiros e não financeiros menos dívidas
Getty Images/BBC Brasil

Há países onde se discute de forma oportuna a tributação da riqueza, como é o caso do Chile, onde o debate se concentra na criação de um imposto predial a partir de um certo valor.

De fato, as propriedades são uma das formas mais concretas da riqueza, mas a verdade é que o conceito de patrimônio é tão amplo que inclui, por exemplo, obras de arte, joias, barcos, automóveis, contas bancárias e ativos financeiros.

Por isso mesmo é difícil de detectá-lo e valorá-lo.

“Para garantir sua eficácia, é muito importante o intercâmbio de informações fiscal e financeira entre as autoridades tributárias dos países”, diz Titelman.

“É um imposto com elevado potencial arrecadatório, mas sua implementação não é trivial”, afirma.

“Para uma região que tem dificuldade em arrecadar, isso pode ser um imposto muito bom e importante.”

O desafio, ele explica, é haver uma troca de informações entre países para evitar problemas como fuga de capitais além das fronteiras.

Alberto Barreix, economista-chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), tem uma visão diferente.

Segundo seus estudos, o imposto sobre o patrimônio possui diversas desvantagens em relação a outros.

“No mundo, os impostos sobre o patrimônio não arrecadam praticamente nada, enquanto os impostos sobre a renda, sim”, diz ele em entrevista à BBC Mundo.

A participação do imposto sobre a riqueza, ele explica, “é muito pequena em relação às pressões fiscais que os países têm na América Latina”.

E, em muitas ocasiões, esse imposto não é cobrado “porque você não deseja tributar um patrimônio que já está investido”. 

 

Há dúvidas sobre a real capacidade arrecadatória de um imposto sobre riqueza

Há dúvidas sobre a real capacidade arrecadatória de um imposto sobre riqueza
Getty Images/BBC Brasil

Por outro lado, explica, há o tema da valoração de patrimônio. “É muito difícil valorar uma empresa.”

Além disso, acrescenta, é muito complexo aplicar isso quando não há colaboração internacional. Nessa perspectiva, Barreix argumenta que existe uma solução tributária melhor.

“Uma fórmula razoável para aumentar a arrecadação é aplicar um imposto sobre a renda, bem cobrado, junto a um imposto sobre heranças.”

Como funciona a tributação nos 3 países?

Segundo um estudo da Cepal, estas são as características dos impostos sobre patrimônio (ou sobre riqueza) em três países latino-americanos.

1. Uruguai

Chamado de Imposto sobre Patrimônio (Ipat), o tributo incide sobre o patrimônio líquido de pessoas físicas e jurídicas localizadas no Uruguai.

Inclui ativos como dinheiro em espécie, metais preciosos, veículos, imóveis, mobiliário e créditos para o contribuinte.

Para pessoas físicas e famílias residentes no Uruguai, varia de 0,4% a 0,7%.

 

No Uruguai, tributo foi batizado de Imposto sobre Patrimônio, ou Ipat

No Uruguai, tributo foi batizado de Imposto sobre Patrimônio, ou Ipat
Getty Images/BBC Brasil

Para pessoas físicas não residentes, vai de 0,7% a 1,5%.

As isenções incluem ativos no exterior, áreas florestais com certas características, títulos de dívida pública, ações da Corporação Nacional de Desenvolvimento e imóveis rurais afetados por propriedades agrícolas.

2. Colômbia

Os ativos líquidos localizados na Colômbia de pessoas físicas e jurídicas são tributados.

O imposto é calculado considerando o patrimônio líquido bruto total menos dívidas. Inclui bens no exterior e a versão atual da lei se aplica de 2019 a 2021.

Possui uma taxa única de 1% para ativos líquidos acima de US$ 1,5 milhão (aproximadamente).

A propriedade isenta é a primeira casa do contribuinte por um valor de até US$ 140,5 mil, aproximadamente.

3. Argentina

Na Argentina se tributa o patrimônio bruto de pessoas físicas e jurídicas

Na Argentina se tributa o patrimônio bruto de pessoas físicas e jurídicas


Getty Images/BBC Brasil

Com o nome de Imposto sobre Propriedades Pessoais, tributa o ativo bruto de pessoas físicas e jurídicas localizadas na Argentina.

Isso inclui imóveis, carros, notas (em peso e moeda estrangeira), contas bancárias, saldos de fundos comuns e outros investimentos não isentos, obras de arte, antiguidades, utensílios domésticos e bens no exterior.

Para bens no país, a taxa de imposto varia de 0,5% a 1,25%. Para bens no exterior, entre 0,7% e 2,25%.

Inclui entre os ativos isentos a casa do contribuinte no valor de até aproximadamente US$ 300 mil, os saldos a prazo e contas de poupança, os títulos de dívida emitidos pelo Estado e os ativos intangíveis, como marcas e patentes.

Vídeos de moda viram estratégia de venda no Bom Retiro

Gravação de vídeo que será distribuído a lojas de todo país

Gravação de vídeo que será distribuído a lojas de todo país
Estadão Conteúdo

“Esse produto é “bate caixa!” – grita Vanessa Dantas toda vez que vê uma peça que acredita ser de alto giro para as butiques do interior do país. Graças aos vídeos improvisados, feitos pelo celular, sem microfone nem luz, a especialista em moda virou uma espécie de celebridade para um público bem específico: os milhares de lojistas de todo o país que abastecem seus estoques nas 2 mil marcas instaladas em pontos de rua, shopping centers e edifícios comerciais da região do Bom Retiro, no centro de São Paulo.

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Sócia de um pequeno negócio, o EModa, que produz vídeos filmados de loja em loja no Bom Retiro, Vanessa é também a apresentadora da plataforma online batizada Bom Retiro ao Vivo. Depois de perder dinheiro com o desenvolvimento de plataformas de e-commerce para conectar lojistas do interior às marcas do reduto paulistano de moda, o negócio começou a dar frutos ao se render às ferramentas gratuitas que estão nas mãos de todo mundo: YouTube, Instagram e – principalmente – WhatsApp. “Perdi dinheiro no passado, mas descobri que o WhatsApp é uma grande ferramenta de venda”, conta Vanessa.

O app de mensagens que pertence ao Facebook é a primeira plataforma para a distribuição dos vídeos que Vanessa produz, todos os dias, ao lado da modelo Mari Baxur. É sempre o mesmo esquema: depois de combinar rapidamente com as marcas quais modelos de roupa precisam promover, elas fazem vídeos curtos, filmados pelo celular de uma assistente.

Enquanto Vanessa insta os lojistas a comprar rápido e cobre os produtos de elogios, Mari faz uma ou duas trocas de roupas e dá dicas sobre combinações das peças e de estilo. Em dez minutos, resolvem a situação. E partem para a próxima loja.

Assim que são filmados, os vídeos são enviados para diversos grupos de WhatsApp com curadoria da equipe de Vanessa – sem edição ou pós-produção. Essa audiência é hoje composta de mais de 3 mil butiques espalhadas pelo Brasil, divididas em 12 grupos (todos com a lotação máxima de 256 membros cada).

À medida que os clientes conectados demonstram interesse em certos produtos, entram em ação as compradoras da EModa. Hoje são oito profissionais, que têm uma carteira de 40 a 60 clientes cada. Acompanhando os vídeos postados, elas passam a responder individualmente às questões. Ajudam a escolher peças e tamanhos. Por fim, providenciam o envio dos pacotes pelo correio.

A remuneração da EModa vem da comissão cobrada das vendas intermediadas pela plataforma. Dos 3 mil clientes que interagem nos grupos do app de mensagens, 900 já comparam pelo menos uma vez usando o serviço idealizado por Vanessa e pelos sócios Jéssica Braschi e Luiz Moraes.

As marcas do Bom Retiro, por enquanto, não pagam nada para aparecer nos vídeos, mas Vanessa já desenha um formato para ganhar nas duas pontas. A ideia é remunerar a audiência qualificada, que inclui também 20 mil seguidores no Instagram, além de canais nas plataformas de vídeo YouTube e Vimeo.

‘Pulo do gato’

A aposta do EModa no WhatsApp tem razão de ser. De acordo com lojistas ouvidos pelo Estado, o WhatsApp virou uma ferramenta importante de vendas – cerca de 70% a 80% do giro de produtos do Bom Retiro é hoje originado no aplicativo. A ferramenta traz economia para a clientela, que está espalhada pelo Brasil. Em um momento em que as tendências mudam rápido, o lojista não pode mais esperar um ou dois meses para viajar para São Paulo e renovar o estoque. Ao comprar remotamente, também economiza os custos da viagem, que podem ser convertidos em mais roupas.

As marcas do Bom Retiro tentam, individualmente, fazer o relacionamento com os clientes no “pinga-pinga”, enviando fotos e vídeos de roupas. O “pulo do gato” da EModa foi concentrar um grande número de clientes nos grupos de WhatsApp. Para o lojista que está em outros Estados, é a chance de ver lançamentos de diversas marcas de uma só vez. Não é incomum que Mari e Vanessa visitem dez lojas em um só dia.

Na manhã que a reportagem passou com elas, fizeram vídeos com vestidos de paetê, moda praia, tiaras de carnaval e roupas “plus size” (neste caso, Vanessa exerce dupla função: vendedora e modelo).

Os vídeos de tom despachado transformaram Vanessa em uma referência em estilo na região. Lojista de Florianópolis, Margarete Pereira Teodósio, que vem a São Paulo fazer compras todos os meses, parou para conversar com a apresentadora do “YouTube” do Bom Retiro, elogiando os posts no Instagram. “Ela é simpática demais”, disse. Rapidamente, Vanessa sacou um cartão de visita e emendou: “Você conhece o serviço de entrega pelo WhatsApp?”

Administrador de quatro marcas baseadas no Bom Retiro – incluindo a Dip, grupo cearense de moda praia, que abriu as portas na última terça-feira -, Lucas Silveira Reis contratou o serviço da EModa para divulgar produtos na véspera da inauguração. No fim da primeira manhã, havia recebido 67 clientes – a maioria citando a cobertura do Bom Retiro ao Vivo. “Não tem jeito. Por mais que o cliente venha até a loja, ele está muito influenciado pelo que já viu pelo WhatsApp”, disse Lucas.

Escala

No mundo dos influenciadores, o estilo “vida real” adotado pelo Bom Retiro ao Vivo pode ser uma vantagem, afirma a diretora geral da agência Isobar no Brasil, Ana Leão. “A intuição é uma ferramenta importante do influenciador de nicho”, diz a executiva, que usa uma plataforma de tecnologia para separar os especialistas em alguma área dos mega influenciadores que passam a vender de tudo. “A vantagem dessa falta de produção é a autenticidade. É um estilo que o cliente percebe como verdadeiro.”

O uso do WhatsApp simplifica a interação com os consumidores, diz a executiva da Isobar. “O Brasil tem um lado de improvisar e saber usar ferramentas. E o WhatsApp veio para revolucionar a maneira do brasileiro se comunicar, até porque vivemos em um país que muita gente tem dificuldade de escrita.” Já a figura da consultora de vendas é uma resposta a outra tendência do varejo: a figura do personal shopper.

Enquanto posta um vídeo atrás do outro, Vanessa planeja a expansão do Bom Retiro ao Vivo, que ganhará filhotes em outros conhecidos centros de confecções e moda em São Paulo – o Brás, região que abriga 6 mil marcas de apelo popular, e o Itaim, com 400 etiquetas de alto padrão. Será um complemento ao trabalho feito no Bom Retiro, que se posiciona em itens de valor intermediário e reúne 2 mil confecções.

Para empreender essa expansão, a EModa vai adicionar mais 40 personal shoppers à sua equipe até o fim do ano – todas trabalham como microempreendedoras individuais (MEIs). E, como o modelo de negócio prevê um crescimento exponencial da distribuição de vídeos, dez novas apresentadoras vão passar a se revezar para apresentar as novidades. Vanessa e Mari, agora, terão de fazer escola. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Bolsonaro: deveremos transferir embaixada para Jerusalém em 2021

Bolsonaro está em visita oficial à Índia desde sexta-feira (24)

Bolsonaro está em visita oficial à Índia desde sexta-feira (24)
Manish Swarup / Estadão Conteúdo / 25/01/2020

O presidente Jair Bolsonaro reforçou neste domingo (26) sua intenção de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

“Eu acho que no próximo ano deveremos estar na posição para possivelmente transferir nossa embaixada para Jerusalém”, afirmou Bolsonaro em entrevista ao canal de televisão DD India. O presidente disse que tem conversado com líderes árabes sobre o assunto e que, até o momento, não houve nenhuma oposição à proposta. “Os Estados Unidos mudaram a embaixada para Jerusalém e não houve problema, e nós pretendemos fazer o mesmo, sem nenhuma atrito”, acrescentou.

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Em resposta a uma pergunta sobre semelhanças entre o Brasil e a Índia, Bolsonaro lembrou que os dois países reivindicam uma vaga no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). “Acredito que Brasil e Índia ganharão muita visibilidade aos olhos do mundo se conseguirem assento no Conselho”, disse o presidente.

Bolsonaro também exaltou os 15 acordos bilaterais assinados entre Brasil e Índia, afirmou que tem muito em comum com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e declarou que os dois países trabalharão para fortalecer os laços comerciais. “Brasil e Índia é um casamento perfeito”, resumiu.

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O presidente disse, ainda, que seu governo defende o liberalismo na economia, mas reivindica “uma agenda conservadora nos costumes, valores e princípios”. Ele afirmou que o Brasil faz comércio “com o mundo todo” e que “os números na economia são excelentes”. “Não temos viés ideológico no comércio” declarou, ao citar parcerias com a China e com a Arábia Saudita.

Ao ser questionado sobre o alinhamento do país com o governo de Donald Trump nos Estados Unidos, especialmente no caso do assassinato do general iraniano Qassim Suleimani por uma operação americana no início de janeiro, Bolsonaro respondeu que o Brasil “repudia o terrorismo em todo lugar do mundo”. “Mas não queremos entrar nessa briga entre EUA e Irã e, claro, o comércio é muito importante para o Brasil”, ponderou.

Sobre meio ambiente, Bolsonaro disse que “há um exagero enorme” sobre as ameaças das mudanças climáticas. Ele defendeu a política ambiental de seu governo e disse que precisa haver um equilíbrio entre preservação do meio ambiente e desenvolvimento econômico. “Devemos usar de forma racional as riquezas minerais que Deus nos deu”, declarou.

Bolsonaro está em visita oficial à Índia desde sexta-feira (24).

Na Índia, Tereza Cristina diz que agricultura brasileira não é vilã

Na Índia, Tereza Cristina diz que agricultura brasileira não é vilã

Na Índia, Tereza Cristina diz que agricultura brasileira não é vilã
Marcelo Camargo/Agência Brasil

A agricultura brasileira não deve ser tratada como vilã das mudanças climáticas ou do meio ambiente, forma pela qual tem sido vista por parte da sociedade brasileira e também por alguns integrantes da comunidade internacional. A avaliação é da ministra Tereza Cristina, uma “caixeira-viajante” do setor, cuja equipe foi a pelo menos 32 destinos internacionais nos últimos 13 meses para promover o setor. “Abrir mercado não dá para ser por telefone, é olho no olho.”

A ministra admite que existe de fato uma preocupação grande com mudanças climáticas ao redor do mundo e que “ninguém tem pretensão de negar isso”, mas ressalta que os agricultores são os principais interessados no clima e em ter chuvas com regularidade. “Fica parecendo que para produzir a gente tem que destruir o meio ambiente, e não é isso. Temos 66% de vegetação nativa intacta e estamos trabalhando há muito tempo para fazer uma agricultura sustentável”, afirmou em entrevista exclusiva ao serviço de notícias em tempo real do jornal O Estado de S. Paulo na Embaixada do Brasil em Nova Délhi.

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A ex-líder da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) afirma, no entanto, que há gente colocando outros ingredientes e interesses na discussão ambiental. “Eles acham que a agricultura brasileira é muito competitiva. E é mesmo, mas não é destruindo a imagem do Brasil que eles vão conseguir. O Brasil foi vilanizado, botaram o alvo nas nossas costas e o povo está dando tiro”, disse. Para ela, o tema ganhou mais atenção após a assinatura do acordo União Europeia-Mercosul, fechado em junho de 2019.

Na missão à Índia, o objetivo é aquele traçado desde o início da gestão: diversificar a pauta de produtos exportados pelo agronegócio brasileiro e oferecer novas oportunidades para os agricultores e pecuaristas do Brasil. Além de commodities, ela tem discutido a venda de produtos como feijão, gergelim e grão de bico para os indianos.

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Segundo a ministra, a cadeia se organiza quando começa a exportar, o que eleva a competitividade e a renda. Também foi debatida a possibilidade de redução de tarifa para carne de frango e suína e a abertura do mercado para citrus.

Tereza Cristina ainda enalteceu a liderança do Brasil em pesquisas e inovações para a agropecuária tropical, dizendo que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) pode ser um atrativo nas negociações bilaterais.

A ministra citou ainda as possibilidades para o Brasil diante do interesse dos indianos em começar a produzir etanol e em mudar sua matriz energética. O governo do primeiro-ministro Narendra Modi quer chegar a 20% de etanol na mistura com a gasolina – hoje não passa de 7% – e demonstrou interesse nos motores flex do Brasil. “É um jogo de ganha-ganha”, resume, citando que o Brasil tem equipamentos de última geração e tecnologias inovadoras que os indianos podem adquirir.

“As conversas estão acontecendo, mas não é do dia para a noite. Agora, só anda se tiver interesse, se não a gente vem aqui e fala bonito, vamos embora e ninguém dá continuidade. Mas, na minha percepção, o momento é bom”.

Após crise, Moro destaca combate ao crime organizado

Moro apresenta números sobre combate ao crime organizado no país

Moro apresenta números sobre combate ao crime organizado no país
Adriano Machado/Reuters – 29.8.2019

O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, apresentou no sábado (25) números sobre o combate ao crime organizado e sugeriu alinhamento com o presidente Jair Bolsonaro na área. A manifestação, feita em seu perfil nas redes sociais, veio depois de uma crise envolvendo declarações de Bolsonaro sobre a recriação do Ministério da Segurança Pública, atualmente sob o guarda-chuva da pasta de Moro.

O ex-juiz da Lava Jato indicou que vai manter a agenda de visibilidade, acentuada na semana passada. Na segunda-feira passada, Moro participou do Roda Vida, da TV Cultura, que bateu recorde de audiência em 12 meses. A entrevista foi vista por mais de 1,5 milhão de pessoas no canal do programa no YouTube.

O ex-juiz da Lava Jato indicou que vai manter a agenda de visibilidade, acentuada na semana passada. O ministro deverá conceder hoje entrevista ao programa Pânico, da rádio Jovem Pan. Na segunda-feira passada, Moro participou do Roda Vida, da TV Cultura, que bateu recorde de audiência em 12 meses. A entrevista foi vista por mais de 1,5 milhão de pessoas no canal do programa no YouTube.

Nos posts, ele também defendeu a transferência de chefes de facções a presídios federais – medida tomada em sua gestão que desagradou a governadores e respectivos secretários de Segurança Pública.

“342 criminosos perigosos foram transferidos aos presídios federais em 2019. Ao final do ano, eram 624, recorde histórico. Pela lei anticrime, todas as conversas com visitantes são gravadas, o que reduz a possibilidade do envio de ordens para a prática de crimes lá fora”, disse Moro, citando a lei que entrou em vigor na quinta-feira.

A crise entre Moro e Bolsonaro chegou ao fim na sexta-feira, quando o presidente recuou da ideia de desmembrar o Ministério da Justiça após forte reação contrária de quem interpretou a medida como uma forma de esvaziar a atuação do ministro no governo. Para aliados de Moro, Bolsonaro quis dar uma “alfinetada” nele por sua participação no Roda Viva.

Para assessores do presidente, o ex-juiz não defendeu Bolsonaro com a “ênfase esperada” no programa. O nome de Alberto Fraga – ex-deputado federal, amigo e interlocutor do presidente – apareceu em primeiro lugar na bolsa de apostas para assumir a nova pasta.

A possibilidade de desmembrar a pasta de Moro foi levantada na quarta-feira, quando secretários estaduais de Segurança, em reunião com Bolsonaro, apresentaram suas demandas, entre elas a recriação da pasta de Segurança. Após o encontro, o presidente anunciou publicamente apenas essa sugestão, o que foi interpretado pelos secretários como um endosso de Bolsonaro à ideia.

Na Índia, Bolsonaro participa do Dia da República e vê desfile militar

Presidente Bolsonro caminha com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi

Presidente Bolsonro caminha com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi
Manish Swarup / Estadão Conteúdo / 25/01/2020

O presidente Jair Bolsonaro participou na manhã deste domingo (26) da cerimônia do Dia da República da Índia, a principal data nacional do país. Com forte esquema de segurança e realizada na principal avenida da cidade, é uma celebração para destacar os valores, a cultura e as conquistas do povo indiano. Bolsonaro foi o convidado de honra do primeiro-ministro Narendra Modi – todo ano um líder internacional é escolhido.

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O Exército, a Marinha e as Forças Armadas da Índia também foram exaltadas na larga esplanada Rajpath, onde ficam importantes edifícios públicos de Nova Délhi. A segurança do evento foi feita com drones, dez mil guardas, bloqueios de avenidas, ruas e alamedas. Em alguns momentos, o desfile lembrou os das escolas de samba do carnaval brasileiro.

Carros alegóricos exaltavam elementos dos diferentes Estados que integram a Índia, um país continental multicultural de 1,3 bilhão de habitantes. A transmissão do evento foi realizada por vários canais locais e foi o assunto mais comentado no Twitter indiano. O rosto do presidente, que sentou ao lado de Modi, foi mostrado diversas vezes. Devido ao fuso de oito horas e meia e à agenda intensa, ele aparentava cansaço.

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Símbolos da arquitetura milenar, camelos com ornamentos, elementos da gastronomia, músicas típicas, malabaristas, acrobacias e apresentações com roupas características foram os pontos altos do desfile. Helicópteros e caças fizeram acrobacias sobre a esplanada e animaram a população local com voos rasantes.

Avaliação

Questionado ao final do evento sobre o que achou do poderio militar indiano, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “os de ponta não estavam ali”. “Todo mundo sempre esconde essa questão. Mas é um país nuclear, graças obviamente ao seu poderio, é um país que ajuda a decidir o futuro da humanidade”.

O presidente disse que a Índia “não chega às últimas consequências” com países da região “certamente pelo poderio bélico”, mas negou o interesse em armas nucleares. “Está na nossa Constituição que abdicamos da energia nuclear a não ser para fins pacíficos.” Apenas nove países têm armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte.

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Bolsonaro está na Índia desde sexta-feira, onde assinou 15 acordos bilaterais, visitou o memorial do líder pacifista Mahatma Gandhi, conheceu um bazar turístico e participou do Dia da República. A agenda termina na segunda-feira, com um encontro com empresários e uma visita ao monumento Taj Mahal.

Protestos

A visita do presidente Jair Bolsonaro à Índia foi bastante enaltecida pelo primeiro-ministro Narendra Modi e por seus apoiadores, mas não foi unanimidade. Os críticos do presidente afirmam que ele não representa os valores da cultura indiana e não seria o convidado mais adequado para a data. No Twitter, ao lado da hashtag #RepublicDay como tópicos em destaque, havia também a mensagem #GoBackBolsonaro.

Cubanos excluídos do Médicos pelo Brasil relatam dificuldades

Cerca de 500 profissionais cubanos não entraram no Médicos pelo Brasil

Cerca de 500 profissionais cubanos não entraram no Médicos pelo Brasil

José Cruz/Agência Brasil

Em 18 de dezembro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a MP (Medida Provisória) 890/19, que criou o programa Médicos pelo Brasil, substituto dos Mais Médicos – lançado em 2013 pela então presidente Dilma Rousseff (PT). O antigo programa foi encerrado em 18 de novembro de 2018 e cerca de 18 mil médicos cubanos foram obrigados a escolher: ou voltavam para Cuba, ou seriam considerados desertores pelo governo de seu país.

Mais de 2,5 mil profissionais optaram por permanecer no Brasil sob a penalidade de não poder voltar a Cuba por oito anos. No entanto, impedidos de praticar medicina, foram obrigados a procurar por empregos alternativos. Muitos dos que ficaram aguardavam pela aprovação do Médicos pelo Brasil com a esperança de voltar a trabalhar em sua área.

A realidade, porém, se mostrou diferente para Yulia Molina, Carlos*, Margaret García, Kenia Pérez e outros 500 médicos cubanos que ficaram de fora do novo programa sancionado pelo presidente.

A MP exigia que os médicos cubanos que desejassem trabalhar no Médicos pelo Brasil cumprissem dois requisitos: que estivessem no exercício de suas atividades no Programa Mais Médicos no dia 13 de novembro de 2018, quando o acordo de cooperação foi encerrado pelo governo cubano; e ter permanecido no Brasil até a data da publicação da medida provisória, em 1º de agosto de 2019, na condição de naturalizado, residente ou com pedido de refúgio.

Carlos*, de 47 anos e que não quis revelar seu nome na reportagem, já havia se desligado do Mais Médicos antes do fim do convênio com Cuba. “Muitos haviam fugido (de Cuba) antes. Meses, semanas, dias antes. Não sabemos por que foram adicionados esses requisitos tão injustos. Nos separaram só por uma data. Porque todos tínhamos trabalhado os 3 anos exigidos no contrato. Todos conhecemos como funciona a metodologia de trabalho no SUS”, diz.

Yulia Molina (à direita)

Yulia Molina (à direita)
Reprodução

O médico passou meses desempregado e conta que conseguiu se manter com a ajuda de sua família até conseguir um emprego. “Outros colegas solicitaram ajuda nas igrejas e alguns se juntaram para dividir despesas e assim economizar com aluguel, alimentação, etc. Mas, ainda hoje, há muitos colegas desempregados. Pois muitos moram em cidades do interior onde a oferta de empregos é menor”, relata.

O caso de Yulia, de 34 anos, é ainda mais emblemático. Ela saiu do Mais Médicos dois anos antes de Cuba se retirar do programa, porque estava grávida e corria o risco de dar à luz prematuramente. O governo cubano exigiu que ela voltasse mesmo neste estado delicado. “Foi aí que eu decidi sair do programa. Fiquei no Brasil e estou tentando revalidar meu diploma”, lembra. 

Para Kenia Pérez, de 43 anos, o fim do Mais Médicos representou uma mudança drástica não só na vida dos profissionais cubanos que permaneceram no Brasil, mas também na vida da população. “As pessoas estão sofrendo. Não tem serviços de saúde suficientes para ajudá-los a resolver todos os problemas que eles têm. Você sabe que tem epidemias, que faltam especialistas, falta tudo”, diz.

Empregos alternativos

Kenia conta que ela, assim como seus colegas, teve que desenvolver a capacidade de fazer qualquer coisa para sobreviver no Brasil. Ela trabalhou como cuidadora de idosos e olha com bons olhos para esse período da sua vida. “Foi uma experiência muito boa porque aprendi demais. E também aprendi que posso viver e não passar fome. Mas foi muito difícil como um todo. Muito difícil ficar em país diferente, longe da família e ter que fazer tudo o que fizemos para sobreviver.”

Margaret García

Margaret García
Reprodução

Margaret é outra que, após o fim do programa, procurou outras áreas de atuação para fugir do desemprego. Ela chegou ao Brasil em 2014 e, após avaliação, foi designada para trabalhar no Rio de Janeiro, no CMS (Centro Municipal de Saúde) Sylvio Frederico Brauner, no Complexo da Pedreira. “Trabalhei pelo período de três anos, com bons resultados e aceitação da população. Quando estava perto de chegar ao fim do contrato, foi negado o direito de recontratação para os cubanos e decidi ficar no Brasil com a minha família”, conta.

“Após terminar o contrato fiquei desempregada dois anos e fiz bicos como terapeuta holística. Atualmente trabalho no Hospital Estadual Getúlio Vargas como auxiliar administrativa”, diz Margaret.

Após o fim de sua gravidez, Yulia também ficou muito tempo desempregada. Após esse período, ela começou a trabalhar em uma farmácia. “Mesmo que seja relacionada com a minha área, na verdade, não tem nada a ver. Não é a mesma coisa trabalhar em uma farmácia e você ser médica”, afirma.

“Mudou muito minha vida. Não só na parte econômica, mas no pessoal também. Eu passei nove anos estudando, me sacrificando, passando noites sem dormir, dormindo às 2h e acordando às 5h porque tinha uma prova de manhã. A medicina em Cuba não é um presente para qualquer um, você tem que estudar muito, se sacrificar. Não só em Cuba, mas em qualquer lugar no mundo é difícil. Porque você vai trabalhar com seres humanos. A vida deles está nas suas mãos”, desabafa Yulia.

“Não é a mesma coisa trabalhar em uma farmácia e você ser médica”

Dificuldades para revalidar o diploma

Entre diversos motivos para não conseguir revalidar seus diplomas, os médicos ouvidos pelo R7 ressaltam que as barreiras financeiras são grandes empecilhos para voltar à prática da medicina.

“A revalidação do diploma em qualquer lugar do mundo é um exame complexo. Você tem que dominar protocolos do país em questão e estudar pelos livros recomendados pelas instituições reitoras desse processo. Pagar taxas de matrículas, comprar cursos ou livros para estudar. Não é um problema que pode ser resolvido em semanas”, explica Carlos*.

Além disso, Carlos lembra que um dos problemas existentes para revalidar o diploma é a interferência de Cuba. “Todos temos problemas com a documentação docente porque Cuba nos castiga negando os documentos docentes aos médicos que fogem. Precisamos da ajuda do governo e do Ministério da Saúde para estabilizar nossas vidas por um período breve até fazer a revalidação do diploma”, diz.

O médico de 47 anos também ressalta que os exames para revalidação do diploma estão parados. “A última edição corresponde ao ano de 2017. Mas, naquela época, quando a gente ainda estava no Mais Médicos era proibido para os cubanos fazer a matrícula para o exame”, conta. No entanto, ele destaca que a proibição se deu pelo governo de Cuba, e não do Brasil. “Alguns colegas tentaram, mas com risco de serem descobertos pelos chefes cubanos. Outros fizeram a prova em outros estados, onde os chefes eram outros. Ou seja, com menor possibilidade de serem reconhecidos”, explica.

“Cuba nos castiga negando os documentos docentes aos médicos que fogem”

“Nós existimos”

Para Kenia, os cerca de 500 profissionais cubanos que permaneceram no país e não entraram no Médicos pelo Brasil estão sendo objetos de política. “Se só entraram (no novo programa) os que estavam trabalhando quando foi encerrado o contrato com Cuba, então podemos ver que é político. Como forma de atingir o governo cubano. Se fosse feito de uma forma imparcial, eles incluíam a todos nós, porque eles sabem que ficaram mais médicos no Brasil do que os dois mil que eles incluíram (no Médicos pelo Brasil), somos mais. São 500, 600 médicos que foram excluídos”, relata.

“Eles vão precisar dos nossos serviços. Nós estamos dispostos a estudar para o Revalida, a trabalhar onde for preciso, mas achamos que isso é um tipo de ofensa. Porque também somos médicos, somos bem formados, temos nossos diplomas e fomos os primeiros a chegar ao Brasil para trabalhar. Então acho que temos os mesmos direitos que os demais”, desabafa Kenia

“Nós queremos que saibam que nós existimos. Quando foi falado que os médicos cubanos não queriam ficar no Brasil, pode até ser que não sabiam que tinham muitos médicos que ficaram. Que inclusive romperam com o governo cubano para ficar aqui. Nós queremos que nos conheçam, que reconheçam que existimos, que estamos aqui”, completa Yulia.

Ministério da Saúde

Em nota, o Ministério da Saúde diz que está organizando a estrutura necessária para seleção e contratação dos profissionais que atuarão no programa Médicos pelo Brasil. 

Sobre os profissionais cubanos, a pasta afirma que o caso está sendo estudado diante da nova lei. 

*Estagiário do R7, sob supervisão de Ana Vinhas

‘Ataque a ferrovia me salvou de Auschwitz’, diz sobrevivente

Tom Venetianer, sobrevivente do Holocausto, que veio para o Brasil aos 10 anos de idade

Tom Venetianer, sobrevivente do Holocausto, que veio para o Brasil aos 10 anos de idade
Edu Garcia/R7

Aos 7 anos de idade, o menino Tom Venetianer, de família judia, rumava para o campo de concentração de Auschwitz e provavelmente para a morte em novembro de 1944, quando explosões na ferrovia causadas por ataques soviéticos mudaram o curso do trem e da vida dele. Os vagões repletos de gente foram desviados para outra prisão na região da atual República Checa, onde não funcionava um campo de extermínio.

A mesma “sorte” não tiveram 1,3 milhão de pessoas que perderam a vida em Auschwitz, a maioria judeus. O pior campo de concentração nazista e símbolo do Holocausto só foi libertado em 27 de janeiro de 1945, com a derrocada da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Neste domingo, a comunidade judaica faz atos pelo mundo em alusão aos 75 anos da data.

Tom Venetianer, hoje com 82 anos, será um dos participantes das celebrações em São Paulo, onde reconstruiu a vida após chegar da Europa com os pais, em 1948. Presidente da entidade Sherit Hapleitá (Sobreviventes Remanescentes), ele afirma que o ato tem a importância de lembrar o massacre. “Não só para evitar novos genocídios, mas também para combater movimentos de negação”, diz. 

Em seu apartamento em Higienópolis, reduto de judeus, Venetianer recebeu o R7. A sala repleta de livros, CDs e discos de vinil de música clássica denuncia o apreço pela arte, mas com uma exceção: não há nada do compositor alemão Richard Wagner, artista antissemita associado ao nazismo.

Por outro lado, sobram quadros das duas filhas e dos cinco netos, família celebrada por quem perdeu 19 parentes próximos quando criança.

Tom com a mãe Lizbeta e o pai Alexander

Tom com a mãe Lizbeta e o pai Alexander
Reprodução/Acervo pessoal

Tom nasceu na cidade de Kosice, no leste da então Checoslováquia, em 1937, dois anos antes de a Alemanha iniciar a Segunda Guerra Mundial. Em 1938, um acordo fez a região ser anexada à Hungria, que pouco depois entrou na guerra como aliada da Alemanha. Isso atrasou a caça aos judeus húngaros. “Era necessário que profissionais liberais continuassem trabalhando para manter a economia”, explica Tom.

O pai dele, Alexander, manteve o emprego como químico-farmacêutico, e a mãe, Lizbeta, atuava como contadora. O ambiente, porém, era marcado por um antissemitismo crescente, o que fez a família optar por não colocar o filho na escola.

Em 1944, Hitler descobriu que a Hungria tentava um acordo de armistício e decidiu invadir o país. Os Venetianer perceberam que não escapariam do Terceiro Reich e fugiram para as montanhas dos Cárpartos. Lá se passaram por cristãos e foram abrigados por uma família em um vilarejo. Uma certidão de batismo concedida por um padre católico era um documento alternativo aos originais da família, todos marcados com uma grande letra “j” que identificava a religião.

Pouco depois, Tom e os pais acabaram denunciados a oficiais alemães pela própria família que havia dado acolhimento. Para confirmar que se tratavam de judeus, os oficiais levaram Alexander a um banheiro e exigiram que ele se despisse para mostrar se era circuncidado.

Em seguida, foram levados ao campo de transição de Sered, uma espécie de antessala de Auschwitz para os judeus daquela região, de onde partia o trem para o campo de extermínio polonês. No local, a criança de 7 anos foi separada do pai e começou a vivenciar o horror do nazismo de forma mais drástica. “Ele correu na minha direção e foi atingido no ombro por um sádico oficial da SS com um bastão de madeira. Ele caiu no chão sangrando”, conta.

Alexander foi levado para um campo de concentração na região de Berlim para trabalhos forçados. Já Tom e Lizbeta acabaram tomando o destino que não era o mais comum daquele ponto, a cidade de Terezín, ao norte de Praga. A viagem de pé em um trem lotado durou mais de dois dias.

Entrada do antigo campo de Auschwitz, que hoje abriga museu

Entrada do antigo campo de Auschwitz, que hoje abriga museu
REUTERS/Laszlo Balogh

Campo modelo

O campo de Terezín abrigou a elite intelectual judaica da época. Os nazistas tentavam apresentá-lo como um “campo modelo”, inclusive maquiando mulheres e melhorando roupas e alimentação para visitas da Cruz Vermelha. “O que eles faziam era uma enganação”, diz Venetianer. Na prática, havia violência e maus-tratos. No local feito para receber 7 mil pessoas, foram colocadas 60 mil.

Enquanto Lizbeta trabalhava 12 horas por dia produzindo sapatos e roupas usadas na guerra, Tom vivia solto pelo gueto. Viu pilhas de corpos de presos que não resistiam às condições sendo desovadas em uma espécie de trincheira.

Diferentemente de Auschwitz, onde muitas mulheres, crianças e idosos eram exterminados nas câmaras de gás assim que chegavam, já que eram considerados menos úteis para o trabalho, em campos como o de Terezín as condições eram relativamente menos severas.

“A minha vida dentro do campo, esquecendo a fome, o frio, o medo, e que eu praticamente não via a minha mãe porque ela chegava tarde no alojamento, era de certa forma livre.”

Leia mais: Na Alemanha, lembrar Holocausto é fazer advertência sobre o futuro

A principal “brincadeira” junto com as outras crianças era procurar comida perto do refeitório e no lixo. Isso porque a refeição diária dada pelos alemães consistia em um pedaço de pão e um líquido que não chegava a ser uma sopa. “Esquentavam água e colocavam um pedaço de nabo ou batata, o que sobrava. Não atendia as calorias mínimas necessárias para um ser humano”, conta.

Professores judeus formaram escolinhas escondidas para ensinar as crianças. Segundo Venetianer, que estudou artes na época, os guardas da SS (polícia nazista) fingiam que não viam “porque achavam que todos os presos morreriam de qualquer forma na ‘Marcha da Morte’”. Esse era o nome dos deslocamentos feitos a pé pelo exército alemão e que precisavam ser acompanhados pelos judeus. Eles foram comuns no final da guerra, quando os alemães destruíam e desocupavam os campos para não deixar provas dos crimes cometidos.

O pai do garoto foi um dos submetidos a essa situação extrema. Caminhando no frio, sem alimento ou cobertor, Alexander caiu na neve, ao lado da estrada, e levou um tiro no ombro. Agonizou por mais de dois dias até ser resgatado pela Cruz Vermelha, pesando 42 kg.

Tom, que foi preso aos 7 anos e mandado para um campo de concentração

Tom, que foi preso aos 7 anos e mandado para um campo de concentração
Edu Garcia/R7

Já a mulher e o filho deixaram Terezín em junho de 1945, com o fim da guerra, após sobreviverem também a um surto de tifo. O reencontro com Alexander na cidade de origem da família se deu pouco depois. “Não me lembro das circunstâncias exatas. Minha mãe conta que eu tinha medo dele e que não o reconheci”, diz Tom.

Brasil

A vida dos judeus na Europa continuou difícil após a guerra. Não foi diferente com a família Venetianer, que como muitas perdeu o imóvel para pessoas ligadas ao partido nazista. Conseguiram morar de favor em uma pequena casa. Com o antissemitismo ainda presente, porém, a melhor saída era deixar a Europa. Uma prima que já morava em São Paulo arranjou a documentação para que a família entrasse no Brasil de forma legal.

Em São Paulo, Alexander foi trabalhar em um laboratório farmacêutico, e Tom foi matriculado no Mackenzie, onde teve ajuda de amigos com o idioma. O menino de então 10 anos se adaptou plenamente à vida no Brasil. Formou-se engenheiro eletrônico pela USP e em administração pela FGV. Casou-se com uma húngara e formou família. Trabalhou em diferentes empresas e, atualmente, presta consultoria.

Livros sobre a guerra e quadros com familiares são dispostos na sala

Livros sobre a guerra e quadros com familiares são dispostos na sala
Edu Garcia/R7

Outra de suas atividades foi pesquisar e escrever sobre o Holocausto. Tendo vagas lembranças do que ocorreu quando tinha 7 anos, ouviu relatos da mãe, cientistas e sobreviventes. Dessa forma, pôde entender melhor como se deu o massacre dos judeus da sua região e como o avanço soviético em 1944 conseguiu salvar vidas. “Na época conhecíamos a barbárie alemã, mas ainda não tínhamos uma noção exata do que era Auschwitz e que iríamos para lá”, conta.

Tom também dá palestras gratuitas sobre sua experiência, mostrando que a dor foi assimilada e o desejo de vingança ficou no passado. “Durante um bom tempo tive muita dificuldade de aceitar que minha família foi exterminada. Junto com essa sensação vem a de vingança. Com o tempo fui descobrindo que vieram novas gerações de eslovacos e alemães. Como eu iria odiar pessoas que não cometeram crime algum?”, afirma.

Isso não quer dizer que todas as feridas tenham cicatrizado. A existência do antissemitismo em pleno ano de 2020 ainda faz Tom temer e de certa forma reviver seus traumas. Pesquisas feitas pelo sobrevivente indicam pelo menos 200 atentados contra judeus no último ano.

Ele diz lamentar também a presença dessa “semente do mal” no Brasil, diferentemente da realidade que encontrou em 1948. “O brasileiro não era o brasileiro de hoje. Era um povo pacato, amoroso, que queria ajudar os imigrantes. Hoje o Brasil tem uma onda gigantesca contra tudo aquilo que não era. É preocupante”, analisa.

Tom afirma ter orgulho de ser judeu e acreditar em Deus. Tendo visto e vivenciado os horrores do Holocausto, porém, ele faz uma ressalva. “Fui salvo tantas vezes da morte que não tem como eu não acreditar em Deus. Mas se tudo aconteceu porque a humanidade tem livre arbítrio, algum problema há com esse Deus que nos deu esse livre arbítrio”, diz.

Outra reflexão recorrente na vida do imigrante é por que sobreviveu ao genocídio. Ele promete dar a opinião em seu próximo livro.

Tom participa neste domingo de atos que relembram os 75 anos da libertação de Auschwitz

Tom participa neste domingo de atos que relembram os 75 anos da libertação de Auschwitz
Edu Garcia/R7

 

Ato da comunidade judaica marca 75 anos da libertação de Auschwitz

Ato em Auschwitz em 2018 homenageou vítimas do nazismo

Ato em Auschwitz em 2018 homenageou vítimas do nazismo
Reuters/Kacper Pempel 27.01.2018

A comunidade judaica promove neste domingo (26) um ato pelo Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto e que marca os 75 anos da libertação dos presos do Campo de Concentração de Auschwitz

O evento é promovido pela Conib (Confederação Israelita do Brasil), pela Fisesp (Federação Israelita do Estado de São Paulo) e pela CIP (Congregação Israelita Paulista).

O ato acontece na Sinagoga Etz Chaim a partir das 18h30 e vai lembrar os 6 milhões de judeus assassinados durante o Holocausto e demais vítimas no nazismo. Sobreviventes, autoridades políticas, líderes religiosos, institucionais e jovens acenderão velas em homenagem às vítimas.

Também haverá uma homenagem à sobrevivente Rachela Gotthilf, que morreu em 2019 e que teve sua mãe e avós executados em um campo de extermínio nazista.

Libertação

Trata-se de mais um ato em homenagem à libertação de Auschwitz, ocorrida em 27 de janeiro de 1945. O campo de concentração e extermínio foi o principal símbolo do Holocausto. Somente neste local, 1,3 milhão de pessoas foram exterminadas, a maioria judias.

As homenagens começaram na sexta-feira (24), com a exposição “História e Memória do Holocausto”, que acontece no hall da Sinagoga Etz Chaim. Estão expostas até este domingo obras feitas por adolescentes que cumprem medida de internação no Centro Socioeducativo de Uberaba (CSEUR – MG), com releituras de poemas e pinturas da época do Holocausto.

Veja a programação completa:

Domingo (26), às 18h30: Conib, Fisesp e CIP convidam para ato solene em homenagem às vítimas do Holocausto. Local: Sinagoga Etz Chaim, na Rua Antônio Carlos, 653 – Consolação

De sexta (24) a domingo (26): exposição “História e Memória do Holocausto”, com obras feitas por adolescentes do Centro Socioeducativo de Uberaba (CSEUR – MG). Local: Rua Antônio Carlos, 653 – Consolação

Segunda (27), às 20h30: exibição do filme “The Song of Names” no Teatro Arthur Rubinstein de A Hebraica (Rua Hungria, 1.000). A entrada é gratuita. Classificação indicativa: 16 anos.

Segunda (3/2), às 20h: O Ministério da Cidadania e a CIP (Congregação Israelita Paulista) realizam o Cine Debate com a exibição do longa “Abe”, seguida de debate com as presenças do rabino Michel Schlesinger e do jornalista Jaime Spitzcovsky. Entrada gratuita. Local: Av. Europa, 158. Inscrições pelo site cip.org.br/cinedebate-abe

Mísseis caem perto da Embaixada dos EUA em Bagdá

Vista geral da embaixada dos EUA na zona verde de Bagdá, Iraque

Vista geral da embaixada dos EUA na zona verde de Bagdá, Iraque
REUTERS / Stringer – 7/01/2020

Cinco foguetes Katyusha impactaram neste domingo (26) os arredores da Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, um dos frequentes ataques contra a instalação que se repetem sem deixarem vítimas desde o aumento da tensão entre os governos de EUA e Irã no início de janeiro.

Uma fonte do Ministério do Interior do Iraque disse à Agência Efe que cinco projéteis caíram perto do edifício diplomático, localizado na Zona Verde, uma área fortificada de Bagdá onde estão localizadas todas as embaixadas e escritórios do governo.

A Célula de Informação de Segurança do governo iraquiano confirmou que cinco mísseis caíram na Zona Verde sem causar danos, mas não detalhou se o fato ocorreu perto da embaixada americana.

Diversos mísseis já atingiram os arredores ou passaram sobre a Zona Verde nas últimas semanas, mas esses ataques não resultaram em nenhuma morte. Algumas pessoas já ficaram feridas, assim como edifícios e veículos danificados.

Em 20 de janeiro, três foguetes Katyusha caíram perto da Embaixada dos Estados Unidos e, pela primeira vez, o governo iraquiano ordenou uma investigação do incidente, embora as autoridades ainda não tenham identificado os autores.

Washington responsabiliza as milícias iraquianas apoiadas pelo Irã pelos ataques em solo iraquiano, em particular o grupo paramilitar Kata’ib Hezbollah, o qual acusa de realizar o ataque que matou um empreiteiro americano em 27 de dezembro no norte do Iraque.

Os ataques se multiplicaram desde que os EUA mataram o general iraniano Qasem Soleimani em um bombardeio em Bagdá na madrugada do dia 3 de janeiro. Em resposta, o Irã lançou mísseis contra bases militares iraquianas que abrigavam tropas americanas.