Governo altera Programa de Aids, considerado referência mundial

Mais de 880 mil pessoas vivem com o HIV no país, segundo o Ministério da Saúde

Mais de 880 mil pessoas vivem com o HIV no país, segundo o Ministério da Saúde
Arquivo/Agência Brasil

O governo federal modificou, por meio de um decreto presidencial, a estrutura do Programa Brasileiro de Aids, considerado pioneiro no mundo e referência internacional.

Na mudança, o programa deixa de ser um departamento passando a ser uma coordenadoria e recebe um novo nome. De “Departamento de IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis), Aids e Hepatites Virais” será chamado de “Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis”.

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Antes, o departamento era focado somente em doenças sexualmente transmissíveis. A partir do decreto, compreenderá doenças com diferentes enfrentamentos como tuberculose e hanseníase.

Publicado em 17 de maio, o decreto gerou protesto de redes, coletivos, organizações e ativistas ligados ao combate ao HIV. 

“Não se trata apenas de uma questão de nomenclatura: é o fim do Programa Brasileiro de Aids. O governo, na prática, extingue de maneira inaceitável e irresponsável um dos programas de Aids mais importantes do mundo, que foi, durante décadas referência internacional na luta contra a Aids”, afirma a nota assinada pela Articulação Nacional de Luta contra a Aids (Anaids), Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), Fórum de ONGs AIDS/SP (FOAESP), Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS/RS (GAPA/RS) e Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS (RNP+Brasil).

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“Por mais que se afirme que ‘nada mudará’, o que fica é o descaso com uma doença que mata cerca de 12 mil pessoas por ano e que, longe de estar controlada, continua crescendo, especialmente em populações pauperizadas e estigmatizadas, já tradicionalmente excluídas”, completa. 

Já o Ministério da Saúde ressaltou, por meio de nota, que “a estratégia de resposta brasileira ao HIV não será prejudicada com a reestruturação”.

“A intenção é trabalhar com as doenças mais comuns nas populações com maior vulnerabilidade e com os mesmos condicionantes sociais. Além disso, o HIV/Aids, a tuberculose e a hanseníase possuem características de doenças crônicas transmissíveis, com tratamento de longa duração, o que permite uma integração das ações”, afirmou.

Segundo a pasta, a nova estrutura promoverá uma maior integração entre as áreas da pasta com o objetivo de “reordenar as ações das políticas públicas em favor da melhor gestão do Sistema Único de Saúde (SUS).”

O Programa Brasileiro de Aids foi criado de forma pioneira nos anos 1980 como resposta à pressão da sociedade diante da epidemia da doença que avançava de maneira alarmante no país.

Ao longo dos anos, o programa cresceu, tornando-se uma pasta especial dentro do Ministério da Saúde, conforme explica Salvador Corrêa, coordenador de treinamento e capacitação da Abia (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids).

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“O programa chegou a ser um exemplo ao mundo no final da década de 1990, principalmente em 1996, com a lei de acesso aos antirretrovirais. Esssa lei foi pioneira ao ofertar em um sistema público de saúde tratamento para todos, provocando impacto muito grande na vida das pessoas com HIV e na prevenção da doença”, afirma.

Ele destaca que o departamento vem diminuindo ao longo dos últimos dez anos, seguindo uma tendência global de apagamento da resposta à Aids.

“Sem sombra de dúvidas temos visto as consequências dessa atitude, quando observamos que a epidemia triplicou na população jovem entre 15 e 19 anos no Brasil”, destaca.

“A epidemia está gritando. Pesquisadores já tem chamado na cidade de Porto Alegre de epidemia generalizada, que é como acontece em alguns países africanos. A gente tem tido grandes retrocessos”, completa.

Ele ressalta que a nova estrutura não implicará o fim do acesso aos medicamentos. ” Não é isso que está acontecendo. Mas é uma grande ameaça ao combate da doença porque se começa a desmantelar um programa que deu certo. Um programa que não só oferece medicamentos, mas também aconselhamento e trabalho nas escolas”, diz.

Hoje uma pessoa com HIV no Brasil consegue se tratar totalmente de forma gratuita no SUS, que inclui consulta, exames, medicamentos e sessão com psicológico.

Brasil tem o maior número de casos de HTLV do mundo, o primo do HIV:

 

OMS alerta para o risco do consumo de gordura trans

Gordura trans está presente em alimentos industrializados

Gordura trans está presente em alimentos industrializados
Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Em um informe divulgado nesta quarta-feira (22), em Genebra, na Suíça, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que ao menos 5 bilhões de pessoas em todo o mundo convivem com os riscos de desenvolver doenças associadas ao uso das gorduras trans industrial. Segundo a entidade, o ingrediente industrial causa cerca de 500 mil mortes a cada ano.

Presentes principalmente – mas não só – em produtos industrializados como sorvetes, margarina, cremes vegetais, batatas fritas, salgadinhos de pacote, bolos, biscoitos e gorduras hidrogenadas, as gorduras trans são um tipo de gordura que se forma por um processo natural ou industrial que transforma óleos vegetais líquidos em gordura sólida. Usadas para melhorar a consistência dos alimentos e para aumentar o prazo de validade de alguns produtos industriais, as gorduras trans podem causar o aumento do colesterol total e do colesterol ruim (LDL).

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Segundo a OMS, alguns países estão adotando medidas para restringir o uso das gorduras trans, mas é preciso fazer muito mais. “O impulso para a eliminação global da gordura trans produzida industrialmente está crescendo, com quase um terço da população mundial já protegida, em 28 países”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

“Mas mais de dois terços da população mundial ainda carece de proteção contra a gordura trans industrial em seus alimentos”, acrescentou Ghebreyesus, afirmando que a OMS está pronta para apoiar as Nações em seus esforços para eliminar as gorduras trans.

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De acordo com a organização, o Brasil figura ao lado de outros 25 países que adotam medidas para incentivar os consumidores a fazer escolhas mais saudáveis em relação aos alimentos e bebidas industrializadas. Estão nesse grupo de países que, segundo a OMS, promovem uma dieta saudável a fim de prevenir a obesidade e doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) relacionadas à má alimentação Bélgica, China, Espanha, França, Suécia, Reino Unido, entre outros, como os sul-americanos Bolívia, Paraguai e Uruguai.

O monitoramento global indica que são os países com maior renda são os que têm liderado os esforços políticos para que as gorduras trans sejam erradicadas. Nenhum país de baixa renda e apenas três países de renda média-baixa (Índia, Quirguistão e Uzbequistão) têm políticas anti-gorduras trans.

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Eliminar esses ingredientes da produção industrial de alimentos é uma das prioridades da OMS e uma das metas do programa geral que norteia as ações a serem desenvolvidas pela organização até 2023. Este mês, a OMS apresentou, em seu site, uma série de medidas para orientar os governos, a indústria e a sociedade a substituir as gorduras trans por componentes mais saudáveis. Entre as medidas propostas estão a reformulação, pela indústria alimentícia, das receitas de produção.

No site do Ministério da Saúde também é possível acessar uma cartilha, o Guia Alimentar para a População Brasileira, lançado em 2014, com dicas e recomendações para uma alimentação saudável, saborosa e balanceada.

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Médicos explicam como o slime pode causar intoxicação

Produção de slime leva bórax, substância química que provoca intoxicação

Produção de slime leva bórax, substância química que provoca intoxicação
Freepik

Na noite desta quarta-feira (22), uma mulher publicou nas redes sociais que sua filha está internada há mais de uma semana devido à intoxicação por bórax, substância presente no slime, espécie de massa de modelar que é uma febre entre as crianças.

A garota, de 12 anos, chegou ao hospital com vômitos e sintomas de uma gastroenterite, mas, segundo o relato da mãe, os exames não apontaram infecção por vírus ou bactéria. A suspeita de intoxicação só foi levantada após os médicos avistarem o slime no quarto do hospital em que menina está internada.

De acordo com o pediatra Werther Carvalho, do Hospital Santa Catarina, em São Paulo, tanto o slime caseiro quanto o que é comprado pronto podem oferecer riscos, porém diminuído no segundo caso.

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Carvalho afirma que o borato de sódio, ou bórax, substância química presente no slime e que é manipulada na fabricação do produto, pode causar intoxicação e o potencial de toxicidade do brinquedo pode ser aumentado conforme o uso de outros produtos químicos na mistura, como corantes, amaciantes e cremes de barbear.

“No Brasil, as pessoas não têm orientação de como utilizar o bórax. O produto oferece grande risco e deve ser manipulado com prevenção, como avental e luvas”, afirma Carvalho. “O problema está também porque a criança fica muito tempo exposta àquela substância, quando deveria ficar entre 15 e 20 minutos”.

De acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o bórax tem seu uso regulamentado para fertilizantes e produtos destinados à higienização, sendo utilizado para tais finalidades e nas doses recomendadas. O órgão afirma que a substância não deve ser manipulada por crianças e que não seja utilizada em finalidades não autorizadas.

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Segundo a Anvisa, o uso do bórax pode provocar náuseas, vômitos, cólicas abdominais, diarreia com coloração azul ou esverdeada, pele com cor azulada, queda de pressão sanguínea, diminuição de energia e choque.

O pediatra Nelson Ejzenbaum, membro da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), afirma que as misturas químicas do slime, assim como o uso do bórax, por meio do odor forte, pode causar vômitos, náuseas e tontura. Carvalho afirma que a substância, em contato com a pele, pode provocar lesões na pele e conjuntivite.

A ingestão do slime ou do bórax, seja por desatenção ou por resquícios das substâncias nas mãos, pode provocar vômitos, diarreia e náuseas.

“A intoxicação por bórax é diferente de uma virose, pois a criança não apresentará febre ou tosse, que ocorreriam se ela estivesse infectada. A intoxicação provocará irritação nas mucosas e, hoje, com os dados ambientais do uso de slime ser frequente, os pediatras já estão orientados para a associação de intoxicação por bórax”, afirma Carvalho.

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Ele explica que o tratamento da infecção é sintomático e que a criança deve se manter bem hidratada e com alimentação leve, evitando comidas ácidas, como abacaxi e limonadas, pois pode piorar a irritação das mucosas. “Acima de tudo, a criança deve ser afastada do bórax e não mexer mais com produtos que contenham a substância”, alerta o pediatra.

Ejzenbaum afirma que o ideal é que, se a criança for produzir o slime em casa ou for brincar, a atividade deve ser supervisionada por um adulto. Para Carvalho, a manipulação do produto deve ser realizada em local aberto ou arejado, usando avental e luvas. Ambos os especialistas concordam que a substituição do slime por outras alternativas, como massinhas atóxicas, são melhores opções de brinquedos para as crianças.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Giannini

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Como nossos dentes podem ajudar a ciência

Além dos dentes de leite infantil, os permanentes também podem ser úteis em pesquisas científicas

Além dos dentes de leite infantil, os permanentes também podem ser úteis em pesquisas científicas


Getty Images /BBC NEWS BRASIL

Depois de perder um dente ao cair enquanto brincava, a professora Tamiris de Souza Rodrigues, na época com 12 anos, recebeu atendimento na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao ser avaliada, os dentistas informaram à menina que o dente não poderia ser recolocado e seria substituído por um de resina.

“Os dentistas me explicaram, então, que eu poderia doar meu dente para pesquisas na universidade, e eu o doei”, lembra Tamiris.

O dente permanente da professora infantil foi para um Banco de Dentes Humanos, uma instituição sem fins lucrativos vinculada às universidades, que utilizam dentes humanos para desenvolverem estudos como parte de cursos de graduação, mestrado e doutorado.

“Inúmeras pesquisas utilizam dentes em seus estudos. As mais comuns são: endodontia (tratamentos de doenças e lesões da polpa dentária), dentística (odontologia estética e restauração), ortodontia (alinhamento dos dentes), odontopediatria, próteses e implantes”, explica o professor José Carlos Imparato, da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.

“Nos dentes dos Bancos de Dentes Humanos, aprimoramos técnicas com os alunos e pesquisadores para tratar canais, testamos materiais, como as massinhas para cobrir buracos deixados por cárie e etc”, prossegue Imparato. “São graças às pesquisas com dentes cariados, por exemplo, que hoje é muito menos invasivo retirar uma cárie.”

Atualmente, Tamiris é mãe de um menino de cinco anos que acabou de perder o primeiro dente de leite. Em vez de jogar o dente no lixo ou deixá-lo para a “fada do dente”, Tamiris mais uma vez doará o dente às pesquisas.

A iniciativa pode ser repetida por qualquer pessoa, explica Imparato – que é coordenador do BioBanco de Dentes da Faculdade de Odontologia da USP.

“Quaisquer dentes são aproveitados nos Bancos de Dentes Humanos tanto para a pesquisa como para o ensino: dentes sadios, restaurados, cariados, fraturados, permanentes ou decíduos (dentes de leite). Até o dente do siso serve para pesquisas e pode ser doado”, explica Imparato.

Além das pesquisas odontológicas, nos anos 1990 a comunidade científica mundial descobriu que a polpa dentária era rica em células-tronco e, desde então, os dentes também têm sido usados em pesquisas sobre regeneração óssea e doenças genéticas, como o autismo.

 

Tamiris e o filho de cinco anos; ela vai doar os dentes do filho para a mesma universidade onde doou os seus dentes quando criança

Tamiris e o filho de cinco anos; ela vai doar os dentes do filho para a mesma universidade onde doou os seus dentes quando criança
Arquivo pessoal /BBC NEWS BRASIL

 Doação de órgãos

No momento, o BioBanco da USP faz uma campanha nacional de doações de dentes de leite chamada O Endereço da Fada de Dente. Os dentes podem ser levados pessoalmente à Faculdade de Odontologia, em São Paulo, ou enviados pelo correio, acompanhados de um termo legal de autorização assinado pelo responsável do doador.

“Além de precisarmos desses dentes de leite para continuarmos nossas pesquisas, gostaríamos que as famílias estimulassem os filhos a doarem seus dentes e enfatizar a eles que isso é o mesmo que doar órgãos”, afirma Imparato. “Quem sabe um dia nós teremos uma geração mais sensível à doação de órgãos.”

Ao saber da campanha do BioBanco de dentes da USP, a jornalista Juliana Procópio lembrou que tem guardado um de seus dentes de leite há 20 anos. “Me surpreendi ao saber que, mesmo depois de décadas e sem armazenamento especial, o meu dente de leite ainda serve para as pesquisas”.

A mãe da jornalista é quem guardava os dentes de leite junto com outras lembranças da infância da filha, mas, tempos atrás, a mãe resolveu jogar os dentes de Juliana fora. “Eu fiquei com dó, apenas pela memória emocional, de ver os meus primeiros dentes irem para o lixo. Daí eu peguei um e guardei-o comigo, mas agora vou doá-lo ao BioBanco da USP”, conta a jornalista.

O coordenador Imparato explica que qualquer dente humano, independentemente do tempo e do modo como foi guardado, pode ser doado a um Banco. “Não há limite de tempo para um dente. A única coisa que chamamos atenção é que um dente de leite, por ser menor e frequentemente não ter raiz, tem maior chance de fraturar do que um dente permanente quando está fora da boca”.

Segundo a tese de doutorado Levantamento dos Bancos de Dentes Humanos dos Cursos de Odontologia no Brasil, existem cerca de 64 bancos do tipo em todo o país vinculados às principais faculdades de odontologia do país, que são mantidos exclusivamente por meio da doação de dentes, já que o comércio do órgão é ilegal.

“É importante lembrar que o dente é um órgão humano como qualquer outro”, explica a professora da Universidade Estadual de Feira de Santana Dayliz Quinto Pereira, coordenadora do Banco de Dentes Humanos da UEFS. “Por isso, pesquisas que envolvem dentes humanos, assim como pesquisas com outros órgãos, só podem ser publicadas em revistas científicas após aprovação do Conselho de Ética e com a autorização legal do doador do dente”.

A remoção, manipulação e doação do dente humano está submetida à Lei 9.434/97, Lei de Transplantes, que dispõe sobre todas as partes do corpo humano utilizadas em transplantes, estudos e tratamentos. De acordo com a Lei, quem remove órgãos e tecidos inclusive após a morte de pessoas de maneira não identificada pode ser condenado à pena de três a oito anos de prisão.

Células-tronco do dente

No Brasil, desde os anos 2000, os dentes humanos também são utilizados em alguns laboratórios que desenvolvem pesquisas com células-tronco da polpa dentária. É o caso do BDH da UEFS.

“Nosso BDH tem bolsistas que iniciaram pesquisas sobre as vantagens e desvantagens em utilizar células-tronco encontradas na polpa dos dentes, uma vez que temos uma estrutura física que favorece a retirada e armazenamento das células-tronco dentária”, explica Pereira.

Uma vantagem de se utilizar a célula-tronco da polpa dentária está na facilidade e no procedimento minimamente invasivo em remover dos dentes estas células quando comparada às outras fontes de células-tronco, como o tecido adiposo, cordão umbilical e medula óssea.

Em 2005, a professora do Instituto de Biociência da USP Maria Rita dos Santos e Passos-Bueno, começou a desenvolver as primeiras pesquisas brasileiras em células-tronco retiradas dos dentes de leite.

“Os objetivos iniciais eram avaliar o uso das células-tronco dos dentes de leite para reconstrução óssea do tecido craniano”, afirma Passos-Bueno, explicando que foi comprovado nos primeiros estudos que essas células eram capazes de acelerar o processo de regeneração óssea do crânio.

Atualmente, as células-tronco da polpa dentária têm sido usadas nos estudos sobre doenças genéticas como fissuras lábio-palatinas (FLP) e autismo.

“A partir das células-tronco da polpa dentária, buscamos novos caminhos para a compreensão de doenças genéticas”, explica a pesquisadora. “Em relação às fissuras lábio-palatinas, descobrimos que o mau funcionamento de genes de reparo de DNA, como BRCA1, pode contribuir para o nascimento de uma criança com FLP. Já em autismo, o uso dessas células foi importante para demonstrarmos a associação de um novo gene, o TRPC6, ao autismo”.

Quando questionada se um dia será possível que células-tronco retiradas do dente de leite sejam armazenadas para que, no futuro, seu próprio dono use-as para tratar uma doença ou lesão craniofacial grave, Passos-Bueno é otimista. “Sim, é possível, mas ainda não temos como predizer, principalmente porque não temos bancos de células-tronco de não doadores-específicos”, afirma a pesquisadora, se referindo à possibilidade de, no futuro, cada pessoa poder ter um banco formado por suas próprias células-tronco e para uso próprio.

De volta à professora Tamiris, ela comprou uma caixinha para guardar os dentes de leite do filho de cinco anos. “Vou doar, com os próximos que cairão, para a Faculdade de Odontologia da UFRJ, igual fiz dez anos atrás com meu próprio dente”, conta ela, que mesmo assim não conseguiu se esquivar da “fada do dente”.

“Expliquei ao meu filho que doaríamos o dente, mas um dia ele chegou da escola falando que um amigo havia contado sobre a fada do dente. Eu deixei ele colocar o dente por uma noite embaixo do travesseiro dele, deixei um dinheiro ali, como diz a história, mas, no dia seguinte, voltei a guardar o dente na caixinha.”

Como doar dentes

Interessados em doar dentes de leite para a campanha O Endereço da Fada do Dente da USP, é preciso acessar o site www.enderecodafadadodente.com.br e preencher um formulário com nome e endereço. Os doadores receberão em casa uma carta, já selada, pronta para a doação dos dentes, e um termo de autorização obrigatório, que deve ser assinado e enviado junto com o dente.

“Mas também precisamos de dentes permanentes constantemente”, lembra o coordenador do BHD da USP, José Carlos Imparato. No caso de doação de dentes permanentes, eles devem ser levados pessoalmente na Faculdade de Odontologia da USP, no endereço Av. Prof. Lineu Prestes, 2227 – Butantã, São Paulo – SP, 05508-000, entre as 14h e 17h.

Para doar dentes para o BDH da UEFS, é preciso ir pessoalmente no endereço Av. Transnordestina, S/N – Bairro Novo Horizonte Feira de Santana, Bahia – CEP: 44.036-900.

Os dentes devem estar em embalagem plástica ou em recipiente fechado com água de torneira. Todos os tipos de dentes, assim como em qualquer estado e tempo de conservação, podem ser doados.

Mayaro: o que se sabe e o que falta saber sobre o novo vírus transmitido por mosquitos que pode estar circulando no Rio

O Aedes pode estar transmitindo também o mayaro? Cientistas brasileiros estão atrás desta resposta

O Aedes pode estar transmitindo também o mayaro? Cientistas brasileiros estão atrás desta resposta


Getty Images /BBC NEWS BRASIL

Além dos nomes dengue, zika e chikungunya, os moradores e o poder público do Rio de Janeiro poderão ser apresentados a outro vírus, também transmitido por mosquitos e que dá indícios de ter adoecido pessoas do Estado nos últimos anos: o mayaro.

Na semana passada, o Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) divulgou que seus pesquisadores, liderados por Amilcar Tanuri e Rodrigo Brindeiro, confirmaram casos de infecção pelo mayaro em três pacientes adoecidos em 2016, todos da cidade de Niterói.

O mayaro é endêmico (tem presença contínua) na Amazônia e é normalmente transmitido pelos mosquitos do gênero Haemagogus, que vive nas matas e também é conhecido por propagar a febre amarela silvestre. É um perfil diferente do Aedes aegypti, vetor da dengue, zika, chikungunya e da febre amarela urbana – já que este vive nas cidades.

Em entrevista à BBC News Brasil por telefone, Tanuri explicou que sua equipe ainda busca detalhes sobre os deslocamentos destes pacientes para, por exemplo, regiões de mata no próprio Estado fluminense – mas suas fichas indicam que eles não viajaram para regiões endêmicas no período em que foram infectados.

A notícia da chegada do mayaro ao Estado prenuncia desafios: a infecção por ele causada gera sintomas semelhantes à causada por chikungunya, como febre alta e dores articulares, o que dificulta o diagnóstico. Por isso, ele é chamado de “primo” da chikungunya.

A gravidade da infecção pelo mayaro é considerada moderada, mas já houve casos com complicações sérias como hemorragia, problemas neurológicos e até morte. Não há imunização ou tratamento específico para a doença, mas sim o controle de seus sintomas, como por exemplo o uso de remédios para controlar a febre.

A confirmação da presença do mayaro no Rio também é um passo inicial diante de muitas incógnitas ainda a serem descobertas pelos cientistas; entenda.

O que se sabe sobre a doença

O vírus foi isolado pela primeira vez na década de 50 a partir de amostras de sangue de pacientes infectados em Trinidad e Tobago, na América Central.

Casos no Brasil já foram registrados ainda em 1955 em um surto em Belém do Pará, e posteriormente em outras partes da Amazônia e do Centro-Oeste, como em Goiás há quatro anos.

 

Casos foram registrados em Niterói; cidade fica na região metropolitana, mas tem áreas de mata

Casos foram registrados em Niterói; cidade fica na região metropolitana, mas tem áreas de mata


Getty Images /BBC NEWS BRASIL

Em outros países, a proximidade com a floresta também é decisiva na manifestação da doença, como em regiões do Peru, Bolívia e Venezuela.

“Os principais celeiros das arboviroses (vírus transmitidos por artrópodes, como os mosquitos) estão na floresta amazônica, com 192 tipos de vírus (já descritos), mas nem todos em humanos; e a costa oeste da África, com mais 600 tipos”, explica o epidemiologista.

No caso do mayaro, mamíferos – incluindo os humanos – e até aves já foram descritos como hospedeiros para o vírus, ou seja, são “reservatórios” cujo material infectado é transmitido pelos mosquitos.

Os insetos do gênero Haemagogus são o principal vetor, mas pesquisadores acreditam que o Aedes aegypti pode ser um transmissor “competente” do vírus – e isto traz implicações sérias para o desenvolvimento da doença nas cidades.

O que falta entender

Os pesquisadores da UFRJ identificaram o mayaro a partir da análise a nível molecular de 279 amostras que, pelos sintomas, indicavam infecção por chikungunya.

Mas 57 destas amostras não puderam confirmar a presença da chikungunya, e então os cientistas fizeram uma reanálise delas. Com uma técnica chamada PCR em Tempo Real, a equipe conseguiu finalmente identificar um gene específico do mayaro em três amostras. Os resultados devem ser consolidados e publicados nos próximos meses em um artigo.

 

 Pesquisadores da UFRJ usaram técnica chamada PCR em Tempo Real

Pesquisadores da UFRJ usaram técnica chamada PCR em Tempo Real


Getty Images/BBC NEWS BRASIL

“Nosso interesse agora é descobrir se em 2019 o vírus continua circulando. Se está circulando, onde? E ele já pôde infectar mosquitos urbanizados?”, indica Amilcar Tanuri.

Para buscar estas respostas, a equipe está correndo atrás de amostras de pacientes infectados neste ano, inclusive em outras partes do Estado como cidades que já tiveram casos de febre amarela silvestre – portanto, envolvendo o Haemagogus ou ainda o mosquito Sabethes.

E, como indicou Tanuri, os cientistas procuram também indícios se o Aedes já possa ter picado um hospedeiro do mayaro e estar transmitindo o vírus, ampliando em muito a possibilidade de expansão da doença nas cidades.

Neste cenário, uma das medidas mais importantes a ser tomada já é conhecida – mas ainda deficiente: o combate ao mosquito, com a promoção do saneamento e da limpeza, impedindo a proliferação de ovos e larvas do vetor na água parada, por exemplo.

“(Este tipo de arbovirose) É um subproduto da expansão das fronteiras agrícolas, da entrada da zona urbana dentro da mata, do movimento de pessoas”, explica Tanuri.

Desafios para levar pesquisa adiante

Segundo o cientista, dos mais de 6 mil casos relatados pelo Estado do Rio de Janeiro como indicativos de chikungunya neste ano, cerca de 20% não foram conclusivos para confirmação desta doença – o que abre margem para que possam na verdade incluir casos de mayaro.

Mas estudar milhares de amostras implica em custos e demanda investimentos, o que joga luz sobre obstáculos sérios a serem enfrentados na investigação. Segundo Tanuri, “desde 2014” o investimento em pesquisa através de órgãos de fomento federais e estaduais vem caindo, e agora neste ano o cenário deve ser agravado pelo contigenciamento de verbas para universidades federais como a UFRJ – afetando condições básicas para o estudo, como o fornecimento de luz, água, limpeza e segurança.

Em 2016, o trabalho da equipe de Amilcar Tanuri e Rodrigo Brindeiro no laboratório da UFRJ chegou a uma das publicações científicas mais importantes do mundo, a revista Lancet, na qual os brasileiros apresentaram o sequenciamento completo do genoma do zika.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, de dezembro de 2018 ao início de maio, o Rio de Janeiro foi o Estado com a maior incidência de chikungunya no país – configurando um surto. Já em relação à dengue, zika e febre amarela, um relatório de janeiro do governo estadual mostra que a situação é melhor do que nos anos anteriores.