Karen Jonz: ‘Olimpíada precisa mais do skate do que skate da Olimpíada’

Karen Jonz é lenda do skate

Karen Jonz é lenda do skate
Reprodução/Instagram @karenjonz

Tetracampeã mundial de skate, designer, cantora, youtuber e mãe. Aos 34 anos, Karen Jonz é aquele tipo de pessoa que não consegue ficar parada. E busca a perfeição em tudo o que faz. Até por isso, ela não tem papas na língua na hora de se mostrar insatisfeita com algumas situações em que tem vivenciado. Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 são uma dessas “pedras no sapato” dela.

Karen já mudou de ideia algumas vezes em relação a disputar a vaga olímpica ou não, até porque sua categoria, a Vertical, não estará no programa da competição no ano que vem, o que a deixa “sem expectativa” para se classificar. Além disso, ela vê “a Olimpíada precisando mais do skate do que o skate da Olimpíada”.

“É um esporte que entra para trazer renovação, o pessoal mais novo gosta de ver, gosta de praticar. Eu tenho dúvidas se a população mais jovem gosta de assistir aos Jogos Olímpicos hoje em dia. Com o skate lá, vai ser um atrativo a mais”, declarou ela, que estrela a nova campanha da Audi no Brasil.

Em bate-papo com a reportagem do R7, a atleta ainda pediu uma maior inclusão no esporte e não poupou nem mesmo a Confederação Brasileira da Skate, a qual estaria focada apenas nos Jogos Olímpicos, “deixando de lado” as outras categorias.

R7: Você chegou, através de seu canal no Youtube, a desistir oficialmente da vaga nas Olimpíadas. Porém, parece que voltou atrás. Como está a sua situação agora?

Karen Jonz: É um momento delicado para mim. Eu já tinha decidido não ir, mas acabei não aguentando. Participei de uma competição faz pouco tempo, nesse final de semana já vou para a etapa do Brasileiro em Porto Alegre. Eu estou sem criar expectativas, mas posso falar que estou na disputa.

R7: Por que prefere não criar expectativas?

KJ: Skate para mim sempre foi leve, meu meio de me expressar. Eu não abro mão de viver a minha vida, da minha filha, para focar na Olimpíada. Para mim, esporte não é só campeonato. Participar da Olimpíada não é meu foco de maneira alguma, então eu estou levando isso da mesmo jeito que eu sempre levei a minha vida.

R7: E no que está focada no momento?

KJ: Eu penso sempre como um todo. E até por isso estou me dedicando a outros tipos de projetos, como um documentário, uma série de skate, que vai mostrar o outro lado do esporte, focando sempre nas mulheres. Como tem Olimpíada no ano que vem e o lado competitivo está muito em evidência, eu quero mostrar um pouco o outro lado, o motivo original do skate, o prazer de andar de skate. Foi isso que me interessou no esporte e eu quero que as pessoas pensem nisso também.

Karen acredita que o skate é mais estilo de vida do que esporte de competição

Karen acredita que o skate é mais estilo de vida do que esporte de competição
Reprodução/Audi

R7: Você é tetracampeã mundial no Vertical, uma categoria que não está no programa olímpico. Rola uma frustração de ter que se adaptar para uma outra categoria?

KJ: Todo mundo sabe que o estilo Vertical era muito mais apropriado para a Olimpíada do que o Park, mas foi optado pelo Park. Foi uma surpresa para todo mundo. Mas por um outro lado foi bom, já que o Park é mais inclusivo, mais meninas conseguem andar. Eu gostaria muito de representar o Brasil na minha categoria principal, mas isso não depende de mim. Até por isso eu tento me adaptar e estou tentando uma vaga, mas sem me cobrar muito para conseguir a vida.

R7: Você acredita mesmo que o Vertical seria o mais indicado para o programa olímpico?

KJ: Eu acho que o Vertical teria uma solução mais fácil, porque ele é mais reto, é mais óbvio, o julgamento é mais claro. Foi bem estranha essa decisão, porque o Park é difícil de julgar, são muitos quesitos, velocidade, estilo, quanto a manobra corre. São muitas variantes. Mas eu acho que o skate tem essa variável.

R7: Confesso que fiquei um pouco surpreso quando vi que o skate faria parte das Olimpíadas a partir de 2020. Até por ver o skate mais como estilo de vida do que realmente como esporte competitivo. Como você viu essa inclusão?

KJ: Ao mesmo tempo que tem o skatista mais focado para competição, tem também o free rider. Já faz tempo que está tomando um rumo que a gente não sabe aonde vai parar. Mas o skate tem muito potencial para brilhar na Olimpíada. Na verdade a Olimpíada precisa mais do skate do que o skate da Olimpíada, porque é um esporte que entra para trazer renovação, o pessoal mais novo gosta de ver, gosta de praticar. Eu tenho dúvidas se a população mais jovem gosta de assistir a Olimpíada hoje em dia. Com o skate lá, vai ser um atrativo a mais.

R7: Até por não ter disputado todas as etapas do circuito brasileiro, como enxerga as suas chances de estar em Tóquio?

KJ: Todo mundo tem chance igual. Claro que as meninas que competiram o circuito inteiro têm mais chance, porque somaram mais pontos, mas estamos na disputa. A cada competição que eu vou, é 100% do meu bolso. Atualmente eu não tenho patrocinador desse tipo, então eu que assumo tudo. Mas eu sei que eu incomodo, que a minha presença assusta um pouco as outras atletas, então nós vamos tentar.

R7: Como assim? Você não recebe nenhum tipo de apoio? Nem mesmo da Confederação?

KJ: A Confederação está totalmente focada na Olimpíada. Está vindo uma verba do Governo e isso está sendo aproveitado neste momento. Mas eu espero que nos próximos momentos se tenha atenção também com outras categorias, que não estão no programa olímpico. Espero que consiga ter uma organização melhor. Se isso acontecer, vai ser melhor para todo mundo. Mas eu nunca dependi de confederação para nada e não será agora que eu vou depender. É realmente bem desafiador disputar competições sem nenhum suporte.

R7: Já com 34 anos e uma verdadeira lenda do skate. O que te motiva hoje em dia a continuar competindo?

KJ: Eu busco uma maior inclusão dentro do skate. Eu vi na minha trajetória várias meninas tendo que parar para ajudar a mãe, ter que trabalhar. As mulheres nunca tiveram muito espaço. No meu caso, eu sou branca e loira, mas imagine a situação da minha amiga, que era preta e pobre. Ela teve muito mais dificuldades que eu e simplesmente parou de andar. E não é só um caso, eu posso dizer mais de 100. É uma coisa que me dói muito até hoje e tudo que eu puder fazer para ajudar através dos meus projetos eu vou fazer. Se eu pudesse desejar alguma coisa para o skate, eu desejaria a inclusão de mais classes sociais. Eu gostaria que tivesse mais oportunidades para essas pessoas.

R7: Skatista, designer, música, artista, youtuber e mãe, além de outras tarefas. Como arrumar tempo para tudo isso?

Dani Alves e Hernanes tiram onda com skate de Pamela Rosa

Deixe um comentário